O POETA E O CENTRO SECRETO (conto)

por Fernando Henrique de Passos

 

 

 

Ao contrário de mim, que navego frequentemente na web, o sempre austero poeta surrealista Deco Bretão não tinha qualquer ligação à internet instalada no seu computador, que era assim uma ilha separada do fervilhante continente da informação por um vasto oceano de silêncio.

Ao contrário de mim, que escrevo sempre primeiro com caneta e papel, antes de passar ao computador, o sempre austero poeta surrealista Deco Bretão senta-se logo ao teclado. Foi o que fez nesse instante.

Ao contrário de mim, que só dou título às poesias depois de as terminar, o sempre austero poeta surrealista Deco Bretão começa sempre precisamente pelo título. Escreveu

 

O CENTRO SECRETO DA DOCUMENTAÇÃO AZUL

 

– Ele sabe da nossa existência!

 

O sempre austero poeta surrealista Deco Bretão encetou a poesia.

 

O Centro Secreto da Documentação Azul

Espia os besouros esquizóides de Cabul.

 

– Ele sabe das nossas actividades no Afeganistão!

 

O sempre austero poeta surrealista Deco Bretão continuou.

 

O Centro Secreto da Documentação Azul

Tortura laranjas em Istambul.

 

– Ele sabe das nossas actividades na Turquia!

 

O Centro Secreto da Documentação Azul

Cozinha tremoços para o xeque Abdul.

 

– Ele sabe das nossas actividades na Arábia Saudita.

 

O Centro Secreto da Documentação Azul

Recruta rubis na África do Sul.

 

– Ele sabe das nossas actividades em Pretória!

 

Um brevíssimo sorriso cintilou nos olhos do sempre austero poeta surrealista Deco Bretão, mas a sua boca permaneceu impassível quando escreveu

 

O Centro Secreto da Documentação Azul está a par de tudo

Até das poesias deste autor sisudo.

 

– Ele sabe das nossas actividades em Lisboa!

 

Outro brevíssimo sorriso, que desta vez quase se espraiou até à boca, cintilou nos olhos do sempre austero poeta surrealista Deco Bretão quando escreveu

 

Quem escreve a minha vida e lhe dá forma

É também quem os denuncia e quem me informa.

 

No Centro Secreto da Documentação Azul todos os átomos se imobilizaram.

 

Para me espiar, ganha trinta dinheiros,

Mas faz jogo duplo, joga em dois tabuleiros.

 

No Centro Secreto da Documentação Azul os átomos regressaram aos seus movimentos aleatórios.

 

– O patife do Fernandel!

– O nosso agente de maior confiança!

– O zero zero sete se a conjectura de Goldbach for verdadeira ou zero zero raiz cúbica de dois se a conjectura de Goldbach for falsa!

– Traidor!

– Cão nojento!

– Temos de o liquidar quanto antes!

 

Senti um calafrio mas consegui manter-me calmo. Nessa altura o Centro Secreto da Documentação Azul foi completamente destruído pelo impacto de um meteorito de grandes dimensões. Suspirei de alívio. O sempre austero poeta surrealista Deco Bretão concluiu a sua curta poesia.

 

O Centro Secreto da Documentação Azul tinha um poder infinito

Mas foi destruído por um meteorito.

 

Quanto a mim, continuo à espera que algum matemático descubra se a conjectura de Goldbach é verdadeira ou falsa, para finalmente saber se o meu verdadeiro nome de código é zero zero sete ou zero zero raiz cúbica de dois. Não sei porquê, preferia que fosse verdadeira... Muito embora, uma vez destruído o Centro Secreto da Documentação Azul, isso já não tenha realmente grande importância…

 

11/5/2009